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Plantar em março expõe o milho a um risco climático bastante elevado, alerta pesquisador da Embrapa

Publicado em 5 de março de 2018

Plantio@Laura-de-PaulaEncerrado em fevereiro o calendário recomendado pelo zoneamento agrícola para plantio de milho safrinha em Goiás, existem fazendas que ainda estão com muita soja por colher. Conforme a Associação dos Produtores de Soja e Milho no Estado (Aprosoja-GO), a colheita estadual da oleaginosa está em cerca de 60% do total, enquanto a semeadura do milho alcança 80% da área projetada pela associação em quase 1,2 milhão de hectares.

Com insumos (sementes, fertilizantes e defensivos) já adquiridos para a safrinha, é provável que muitos produtores façam o plantio de ao menos parte do planejado antes dos atrasos na safra de soja. Porém, estender o plantio março adentro é um risco que a Ciência não recomenda.

“O produtor precisa pensar muito se planta milho agora”, alerta o pesquisador em Agrometeorologia na Embrapa Arroz e Feijão, Silvando Carlos. “Aqui em Goiás, se você plantar nessa primeira quinzena de março, os riscos são bem maiores do que se o produtor pudesse ter plantado o milho na segunda quinzena de fevereiro. Março já está completamente fora daquilo recomendado pelo zoneamento, porque a cultura vai estar exposta a um risco climático bastante elevado”, afirma ele, que participa da elaboração do Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC) do Ministério da Agricultura.

Silvando explica que o zoneamento é baseado no balanço hídrico da cultura, o qual considera elementos climáticos e a capacidade de armazenamento de água no solo. O ZARC também leva em conta as normais climatológicas (histórico de chuvas) de cada município para indicar, por meio de faixas de risco, qual o período mais adequado para a instalação de cada variedade de uma cultura.

“O zoneamento é uma política pública que o Ministério usa há quase 30 anos. É importante que o produtor tente atender ao máximo essa janela de plantio do zoneamento para fugir da zona de alto risco para os seus cultivos”, recomenda Silvando.

Histórico de chuvas

Segundo o especialista, o zoneamento não “tenta prever o ano meteorológico”, se as chuvas vão adiantar ou atrasar, mas sim trabalha com dados que já aconteceram. “Pelas normais climatológicas, a gente sabe que nossas chuvas aqui acabam em abril. Se o produtor semear milho agora, daqui uns 60 dias chega no florescimento, que é um período crítico da cultura. Esporadicamente, temos algumas chuvas em maio, mas não suficientes para atender à demanda que essa cultura vai necessitar”, ressalta. Por isso, ele diz, é complicado estender a janela de plantio sem contar com irrigação suplementar.

Se houver diminuição de chuvas na fase reprodutiva da planta (pré-florescimento e florescimento), reforça Silvando, serão grandes os prejuízos em produtividade. “O produtor não pode deixar que o florescimento de qualquer cultivo na safrinha coincida com o final de abril a início de maio, porque as nossas chuvas já são bastante escassas nessa época”, orienta o pesquisador da Embrapa.

Curva de produtividade

Plantar dentro da janela ideal realmente faz toda a diferença na produtividade da lavoura. É o que apontou um levantamento do Grupo Associado de Pesquisa do Sudoeste Goiano (Gapes), feito em mais de 80 mil hectares de milho safrinha na região de Rio Verde-GO, no ano passado. “A gente pode fazer uma curva de resposta da lavoura à época de plantio do milho. Ela mostra exatamente o resultado de quantos dias o atraso no plantio faz perder em produtividade”, relata o gerente de pesquisa do Gapes, Túlio Gonçalo.

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Os melhores patamares de produtividade de milho não ocorrem naquele plantado no começo de janeiro, afirma o pesquisador, devido à alta incidência de doenças e pragas. “Resultados internos do grupo [referentes ao Sudoeste goiano] apontam que a época que compreende as maiores produtividades na região é de 20 de janeiro a 14 de fevereiro”, revela Gonçalo. Quando a semeadura passa do dia 14 e segue até 21 de fevereiro, os dados indicam que o potencial produtivo da lavoura já diminui, porém, “ainda em níveis, de certa forma, rentáveis para o produtor”, principalmente se ele reduz os gastos com investimentos.

“Mas quando o plantio entra a partir do dia 24 de fevereiro, há uma queda de produtividade acentuada, mesmo em anos de uma boa pluviometria, quando as chuvas vão até meados de maio. A gente começa a falar em médias de até 105 sacas de milho por hectare, que dados os custos de safrinha, a lavoura fica praticamente empatada [custos e receita similares]”, alerta o pesquisador do Gapes.

Se está “chovendo bem” e o produtor decide plantar nos primeiros dias de março, as médias não passam de 100 sacas por hectare, apontam os dados do Gapes. Quando a semeadura vai para a segunda semana de março, então, a média cai ainda mais.

De acordo com Gonçalo, o plantio de milho na região de Rio Verde-GO se concentrou nas últimas duas semanas. Ano passado, apenas 7% da área compreendida entre os produtores filiados ao Gapes entrou na janela de risco, considerada pelo grupo de 24 de fevereiro até começo de março. “Esse ano, a gente calcula que mais de 20% da nossa área será plantada em uma época de baixo potencial produtivo”, afirma o pesquisador. “Na safrinha de 2017, as lavouras foram plantadas a partir do dia 15 de janeiro. Em 2018, os primeiros plantios foram no começo de fevereiro.”

Alternativas ao milho

Algumas alternativas ao milho, que combinam menor custo e maior tolerância à deficiência hídrica, podem ser interessantes nesse momento. O gerente de pesquisa do Gapes cita o sorgo, principalmente para regiões mais baixas, e o feijão caupi. Segundo ele, o sorgo plantado até o dia 15 de março pode render uma média de 70 a 75 sacas por hectare, enquanto o feijão caupi, se instalado até 25 de março no máximo, fecha em cerca de 25 sacas por hectare.

“São opções de baixo investimento e alta eficiência na utilização da água. Também são mais seguras [ao risco climático], e podem trazer um custo-benefício melhor do que o milho plantado fora da janela”, destaca Gonçalo.

Já o pesquisador da Embrapa cita ainda a possibilidade de o produtor substituir o milho tardio por algum tipo de adubação verde, como o feijão guandu, contudo, sem retorno financeiro imediato. “Ele poderia plantar algo para recuperar o solo. Mas isso vai depender do planejamento de cada produtor em sua fazenda”, diz Silvando Carlos.

* Texto e foto: Laura de Paula/Aprosoja-GO